Sunday, October 31, 2010

Parabéns ao Partido dos Trabalhadores

Tenho que dar os parabéns ao PT. A eleição ainda não acabou, não sabemos se é Dilma que vai ao planalto (provavelmente, é), mas temos que tirar o chapéu e prestar os devidos reconhecimentos ao Partido dos Trabalhadores. Primeiro, porque seu eterno líder e presidente honorário se manteve no poder por oito anos, em mares tão turbulentos que ouso dizer nunca antes navegados, e, segundo, porque mostrou que sabe ser situação, além de oposição.
Mares nunca antes navegados, porque os escândalos do mensalão, deputados com dinheiro na cueca, queimas de arquivo, sucessivas aprovações de arrochos salariais nas Casas parlamentares e escândalos até mesmo na Casa Civil, constituem um grau de corrupção tão escandaloso, que considero nunca ter sido visto. Por muito menos (e muito mais foco da imprensa Global), destituíram um presidente eleito. Temos que aplaudir a ousadia na manobra política do companheiro Lula ao dizer que “não tinha conhecimento” e em como controlou uma imprensa que, hoje, reside em níveis de chapa branca comparáveis aos da época da Ditadura. Foi genial, eu tiro o chapéu.
E ao PT, como um todo, minhas mais sinceras congratulações por saber conduzir uma eleição com maestria. Diferentemente dos Tucanos, o povo da foice sabe ser situação e oposição. Vide o número de antes analfabetos, mas hoje recém formados historiadores políticos e econômicos, que enchem a boca para falar de FMI, dívida externa e outros males extintos da época do governo de Fernando Henrique – males que Lula extinguiu, ora!
Burguês faz chacota de operário, mas os operários, hoje, mostraram que sabem jogar um fantoche inexpressivo no palanque, tacar laquê e colocar a incrível maquina que criaram em oito anos para suportá-la, e vencer na popularidade. Me pergunto se o Serra, quando fez sua base para lançar-se como candidato Tucano, não se perguntou se seria mais vantajoso apoiar um carismático como o Aécio (para ter chances reais de eleição), e se contentar com um cargo de ministro e estar presente, do que arriscar exibir sua careca lustrada e antipática à tapa, perder nas urnas e não levar nada.
Parabéns ao Partido dos Trabalhadores. Por ser visionário ao formar a massa acrítica que jubila há anos no nordeste, pensando unicamente nesse dia: o dia que 15 milhões à margem da miséria votam em Dilma e na “presença constante de Lula” – amparados por Bolsa Família, Escola, Desemprego e muitos outros, além de atendimento para mudança de sexo no INSS, de graça, em ano de eleição.
E, claro, parabéns também por conseguir, até mesmo na classe média do sudeste, um número expressivo de eleitores. A classe mais achatada com impostos crescentes para financiar o assistencialismo ao miserável que adora um populismo, e fazer girar a nova máquina do Estado, que, hoje, deve eleger a primeira presidente mulher do Brasil. Uma conquista, pelo sutiã e saia que usa, não sua massa cerebral ou estratégias (que beiram a inexistência).
Faça como eu e vista o nariz vermelho (como o partido) de palhaço, pois você acaba de colocar a mesma corja do mensalão no poder. A mesma que não sabia, não ouviu, não viu, só embolsou. Parabéns ao PT.

Tuesday, October 05, 2010

Só é livre quem tem sonhos

Estou sumido um tempo. Vou deixar mais um aqui, para as traças digitais.


Esses dias, uma amiga que acabou de completar quarenta abriu uma carta que escreveu para mesma exatos vinte e dois anos atrás, quando completava dezoito. Achei legal, queria ter pensado em fazer isso. Se bobear, fiz e perdi o diabo da carta. Mas , lembrei que fiz algo que quebra um galho. Esse texto foi escrito na escola, no meu segundo ano de ensino médio, no ano dois mil. Na época, acredito que tinha dezesseis (dependendo do mês, que não está datado). É bem auto-explicativo. Tive que cortar umas partes e umas expressões erradas, além de consertar a pontuação, para ficar publicável. Anda assim valem umas risadas frustradas.

" é livre quem tem sonhos. E é da matéria deles que se deveria medir um homem. Os feitos, falas e tralhas interpretam errado muito fácil. O sonho, não, é perpétuo e seu. E ninguém mais entende.
Se eu puder escolher, quero ser um grande. Empresário, escritor, guitarrista ou jogador, não tenho preferência. Se estiver no panteão, feliz. É para falarem de mim bastante, mais mal do que bem, e não porque unanimidade é chata, mas porque é mais divertido incomodar que ser incomodado.
Dinheiro não é tudo, mas foda-se, eu quero, e sobrando. Mas para me permitir o que eu quero mais (...). Dinheiro não deveria comprar dinheiro, é um meio e não passa de papel ou número na tela.
Sexo é legal. Que eu tenha mil ou algumas (não me incomodo se forem mil), mas que eu seja criativo. (...) Importante é que eu me mantenha são. E que nunca toquem no meu rabo, que ele seja via de mão única e inalterável. Trânsito aqui, pra ir embora.
Que eu seja humilde como minha mãe quer, tão bonito como ela acha que eu sou, inteligente como meu pai diz e tenha a barriga do meu avô. Espero que o meu sadismo não me tire o foco, que minhas crises de riso na hora errada diminuam, que meu nariz e orelhas não fiquem enormes e que o Brasil seja Penta.
Que eu tenha um Playstation 2, uma coleção de Stratocasters (com uma de cada ano significativo) e um violão Martin igual ao do Eric Clapton. Que meu primeiro milhão chegue antes dos vinte e três. Que meu primeiro bilhão eu guarde antes dos trinta. (...) Quero fazer um gol de bicicleta no Maracanã, uma cesta de gancho no Madison Square Garden e um field goal no estádio do Broncos. Queria beber meia garrafa de 51, pura, sem ficar bêbado. (...) Quero que meu filho seja melhor que eu em tudo que eu faço, o que vai ser bem difícil. De novo, quero ser humilde".

Thursday, August 05, 2010

O poeta é um merda

"O poeta é um merda.
Rebusca, rabisca e retruca,
mas continua o eterno incompreendido.

O poeta é um merda,
é Fernando, é Vinícius, é Manuel,
mas no fim entrelaça os traços, tudo igual, repetitivo

O poeta é um merda,
é corno, sentimental, fraco,
e, nos bloqueios, até mesmo o papel o rejeita.

O poeta é um merda,
é burro e previsível no fácil,
porque, até eu que não sou poeta, componho isso..."

Wednesday, September 02, 2009

Inocêncio perdeu a inocência

Após ‘pastelar’ por uns dez minutos de frente a um dos quadros, Inocêncio finalmente perdeu a paciência: “Não entendi porra nenhuma, essa merda é um borrão vermelho. Não tem um moinho aí nem fodendo”. A reação na cara da noiva era a reprodução perfeita do semblante enojado dos inúmeros ‘pseudo-cults’ que os cercavam. Ela suspirou, desolada, e lhe jogou o anel de diamantes na testa. Tudo acabado.
Enquanto tateava o congelador atrás de uma cerveja perdida, perguntava-se aonde ele próprio tinha se perdido. Em que parte de seus curtos trinta e poucos anos havia deixado de lado a falada ‘sensibilidade’ que tanto insistiam que não tinha. A verdade é que Inocêncio era um cético, mas nunca hipócrita. “Insensível é o cu da mãe. Vadia”.
Enquanto resmungava sozinho pela casa, deu de cara com um presente do afilhado, de anos atrás: um destes desenhos feitos na pré-escola. Inocêncio perdeu a carranca e riu com a ironia. O sobrinho, de quatro anos, tinha muito a ensinar a todos os expostos que tinha visto mais cedo. “Aqui os borrões não são de propósito, pelo menos”.
E foi logo após largar o papel de lado e proferir mais uma dúzia de sinônimos para “caralhos alados” que, de súbito, foi invadido pela idéia. Vingança. Doce, bela e sarcástica. E repousava ali, toda sua. Inocêncio perdeu o sono.
No dia seguinte, munido de telas e aquarelas, visitou a irmã. Tanto mimou o afilhado, o fazendo desenhar por uma tarde inteira, que em menos de três horas já colecionava quase vinte ‘obras’.
Inocêncio perdeu a poupança. A fez em cheque a um marchand, para reservar a famigerada galeria que lhe custou o noivado. Decidiu por não usar o próprio nome ou o do afilhado: fez-se S. Ribeiro. Soava-lhe misterioso e artístico o suficiente.
A semana correu e era chegada a hora da esperada vernissage. Sucesso absoluto. S. Ribeiro era “inocente”, “enérgico”, “incisivo” e autor de pinceladas “errantes” e “primais”. A crítica aplaudiu, a imprensa divulgou e S. Ribeiro virou sensação. A obra mais concorrida, ‘O Moinho’, foi aclamada como “visceral, honesta e de sensibilidade ímpar”. Nada saiu de lá desacompanhado de quatro zeros à direita.
Ouviu todo o relato do marchand. Após desligar, Inocêncio perdeu a compostura: ria histérico, de uma orelha à outra. S. Ribeiro tinha se tornado assunto obrigatório em cada reduto cult da cidade.
Foi tamanho o sucesso, que não se conteve e sucumbiu. Inocêncio perdeu o ceticismo. Decidiu-se por enveredar de vez para a coisa e investiu todo o lucro em viagens pelo Velho Continente, cursos de arte e um ateliê próprio. Respirou cores, formas, escolas e tomou gosto.
Após alguns meses, a nova exposição de S. Ribeiro era o burburinho da vez, outra vez. Estaria na maior das galerias e trazia quinze obras inéditas. ‘Amadurecimento’ era o que se vendia nos inúmeros releases sobre o esperado evento.
A exposição chegou e foi-se. E com ela, “foi-se a magia de S. Ribeiro”, diziam os críticos. “A inocência acabou”, lamentavam alguns. “O visceral e honesto não está mais lá, apenas petulância indigesta”, repetiam outros.
Frustrado, Inocêncio estava de volta à estaca zero: de novo tateava o congelador atrás de uma cerveja perdida, e perguntava-se, outra vez, aonde ele próprio tinha se perdido. Inocêncio perdeu a paciência, a noiva, a carranca, o sono, a poupança, a compostura, o ceticismo e todo o dinheiro. Inocêncio perdeu a inocência.

Tuesday, September 01, 2009

O que sobrou da 'limpa'

Fiz uma "limpa" nas postagens antigas. Quis defenestrar uns artigos sem pé nem cabeça, ou pelo menos aqueles mais vexaminosos. Fiquei com dó de alguns, principalmente do trecho que "colo" abaixo, para que não se perca. Que este roteiro fique para a posteridade (ou para as traças digitais).

***

“(...) Um herói desacreditado, sem o mindinho e com passado de operário, tem um sonho: ser presidente. Ele tenta uma, não dá. Tenta duas, nada. Tenta três, quase. Contrata um publicitário alcoólatra e viciado em rinhas-de-galo, compra ternos de grife e promete mundos e fundos aos banqueiros e empresariado.
Aí, sim, tenta a quarta e enfim consegue. O povo chora, a medrosa Regina Duarte é escorraçada e Diogo Mainardi ganha ‘bossa’ para quatro anos de crônicas”.

“(...) Mas o Governo do ex-operário não rende, sua bursite inflama e um dedo-duro, com nome de presidente americano, encrava. Nada dá certo. A oposição coloca alguns podres do poder à mostra e, rapidamente, tudo desanda. Falam em impeachment, cassações, corrupção e um monte de outras palavras complicadas que nosso herói desconhece”.

"(...) O final do roteiro ainda não foi escrito, mas acho que cabem umas assessoras decotadas, alguns anões, indivíduos com nomes compostos esdrúxulos, aviões repletos de dízimos dos fiéis, velhinhas morrendo em Taubaté e descarados com dinheiro na cueca. Acho que tem caldo para superprodução, quem sabe Spielberg ou um dos Salles não pega".

A Vaca sabia demais

Para duas irmãs que me divertem.

***

Não restavam mais dúvidas: estava encurralada dessa vez. Fora flagrada no ato. A Vaca viu tudo, quietinha, sem se manifestar. Cachinhos já podia imaginar o que se passava na diabólica mente bovina, maquinando – ou ruminando – a melhor forma de se aproveitar do ocorrido. A Vaca sabia demais.
Há quem subestime a Vaca, com seu jeito calmo, sempre tranqüila, contente. Cachinhos jamais cometeria esse erro: sabia que por trás do couro malhado repousava uma mente ardilosa, vingativa, cruel. A Vaca a fez comer merda verde em uma ocasião, anos atrás, dizendo que era doce. Isso não se esquece.
Cachinhos sempre foi esperta, safa, marota. Mas a Vaca era experiente e seria uma adversária formidável. Não teria qualquer chance, mesmo do alto de seus sardentos ‘quase’ um metro e setenta, em derrotar a Vaca de frente. Muito mais forte que aparentava e perigosa com beliscões, diz-se que a Bovina poderia espancar até mesmo a Madonna – e só não o fazia porque era grande fã, talvez a maior do rebanho.
A Vaca, no entanto, estava muito relaxada ultimamente. Alguns diziam que já não tinha mais paciência com alguns touros falastrões e estaria a pensar em se mudar de colina: queria um pasto mais farto. A Vaca já chutava o balde há um tempo.
Cachinhos, decidida, resolveu se aproveitar: a previsível Vaca era fã de micareta. E no fim de semana, enquanto enfrentava uma fila no pasto para pular e mascar um Chiclete, foi surpreendida por uma cena incomum: um carro amarelo, de rodas grandes, rompeu pela multidão e traçou uma linha reta em direção à malhada. Antes que pudesse reagir, ali mesmo deitou-se a Vaca, ao som de “A fila andou”. Cachinhos passou o trator, literalmente.
Ao chegar em casa, aliviada com a queima de arquivo, quis relaxar: com um riso meio engasgado que lhe era peculiar, Cachinhos pegou uma lata de Antarctica na geladeira. Estava tão feliz a sardenta moleca, que nem notou o vulto atrás do sofá.
Sorrateiro e nas sombras, o visitante tinha um machado na mão. E logo após o estalo da lata ao se abrir, um batuque solitário e pesado anunciou que os cachos rolavam pelo chão da sala. Ninguém nunca soube os reais motivos do sombrio algoz de Cachinhos, nem como entrara ali. Suspeita-se de que soubesse de uma cópia da chave escondida em algum tapete.
A vizinha, que vira de relance o assassino deixar o local, disse que não o viu levar nada, exceto um pequeno pedaço de plástico, em formato de moeda, entre os dedos. Foi-se calmamente pelo corredor, resmungando algo sobre um golpe que tomara em um almoço...

Thursday, August 27, 2009

Estefânio, o 'ga-gago'

A primeira parte desse texto foi escrita há quase quatro anos e jaz aqui, para quem queira acompanhar do início. De qualquer forma, pode ser lido em sequência ou separado. Ou pode não ser lido, sem pretensões ou obrigações. É bom escrever de novo.

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O problema de Estefânio, ou pelo menos o maior deles desde que sua mãe o registrou com esse nome em um cartório no interior do Pará, é a sua ‘ga-ga-gueira’. Tem gente que sua frio quando está nervoso. Há os que se coçam e ajeitam o cabelo para lidar com a pressão. Existem, ainda, aqueles que batem os pés no chão ou batucam com os dedos na perna. Estefânio ‘ga-ga-gagueja’. Ele coça a cabeça também, de vez em quando.
Ser gago pode ser um problema. Estefânio jura que pode ser parte de um castigo divino, porque gaguejar costuma o atrapalhar nas piores horas. Dessa vez, no entanto, o Estefânio não podia gaguejar. Não podia, porque o sujeito que tinha um revólver trinta e oito prensado contra sua cabeça estava ficando impaciente.

– ‘Ma-ma-ma-mas’ eu ‘no-no-no-num’ to ‘enro-ru-ro-lando’ ninguém, eu sou ‘ga-g-gg-gá-gago’!

O marginal respondeu com um tapa no “pé” do ouvido de Estefânio. E depois de xingar a mãe, a irmã, o tio e o bigode do coitado, deu um ultimato:

– Se não abrir o caixa, eu vou atirar e você não gagueja nunca mais!

Estefânio respirou fundo. Muniu-se de toda a coragem que tinha e retrucou:

– ‘Ma-ma-mas’ é, é ... é ‘i-i-isso’ que eu to ‘diz-zzz-zendo’! O ‘ca-ca-caixa’ só abre com ‘pe-pe-pe-dido’ de voz!

O assaltante praguejou, socou o balcão e tornou a xingar algumas gerações de Estefânio. Reclamava de “que ‘birosca’ é essa que tem caixa ativado por voz” e “quem diabos coloca um caixa gago nesse serviço”. Depois de empurrar Estefânio para o lado e tentar por alguns minutos (sem sucesso) esmurrar, "coronhar" e, por fim, chutar a “boca” da registradora, o bandido deu-se por vencido e sentou-se ao lado de Estefânio, no chão do quiosque.

– Ô Gaguinho, o dono dessa ‘birosca’ é um ‘filha-da-puta’ mesmo. Mundo injusto, esse!

E desatou a relatar em como precisava do dinheiro para saldar uma dívida no morro. Dizia que não era assaltante, só um “cliente” azarado que ficara devendo para um dos traficantes das redondezas. Contou como arranjou a arma e atravessou toda a orla de Copacabana se decidindo por qual local arriscar o assalto. Com o fim da tarde, resolveu, no impulso, tentar um saque contra o primeiro alvo que visse pela frente.

– ‘Pé-p-é-p-péssima’ idéia! ‘Nu-nunca’ tem dinheiro aí...

O bandido puxou um maço e ofereceu um cigarro para Estefânio (‘obr-r-r-br-igado’). Logo, estavam jogando conversa fora e já riam como amigos de longa data. O marginal falava mais, Estefânio era bom ouvinte.
Alguns minutos se passaram e, após ouvirem o som de passos se aproximando e uma gritaria, olharam para a frente do balcão. Nesse momento, algumas coisas aconteceram ao mesmo tempo: um policial, armado com uma pistola na mão esquerda, precipitou-se por sobre o balcão, após tropeçar em um coco que ficou jogado na entrada quando Estefânio foi rendido, e deu de testa na registradora, que “sambou” e despencou de seu apoio. Ao mesmo tempo, Estefânio levantou-se e, com um gesto rápido, tomou a arma que o bandido tinha largado no chão para acender o cigarro.
Agora, Estefânio estava de pé, entre um corpo de um pê-eme com um galo na testa e uma registradora tombada e aberta: araras, onças e até peixes-boi escapavam pelas frestas. Dinheiro transbordava e enchia o chão.
Boquiaberto, o fracassado marginal fitava Estefânio com olhar incrédulo. Quando seus lábios esboçaram aflorar os primeiros xingamentos, o gago foi mais rápido:

– ‘Se-ssss-s-s-ssss-e’ fudeu.

Sunday, August 27, 2006

À base de cagada

Foi sem querer. Na verdade, a maioria das coisas acontece assim, meio na sorte, tudo esculpido pelo acaso, à base de cagada. Não digo isso por dizer, há exemplos que me respaldem.
Que tal Monet? Aquele, o francês impressionista. Pinturas maravilhosas, com um jeitão diferente, meio desfocado, uns “borradinhos”... E se alguém explicasse que estudos recentes comprovam que ele era, digamos, míope? E que todo aquele estilo impressionista não era exatamente um estilo, ora, é como ele via as coisas. No fundo ele até tentou fazer pinturas clássicas, coitado, mas a vista não ajudou. Foi gênio à base de cagada, o que não invalida a beleza da obra.
Na verdade, ouso dizer que é preferível ter sorte – e, com isso, cagar bastante – do que ser competente. Ninguém quer competência, hoje em dia. Privilegiado é o indivíduo que está lá, no lugar certo e na hora certa, e nem precisa se esforçar muito, cai tudo no colo. Bom mesmo é ser o famoso cagão.
O cagão é o verdadeiro vencedor, o maioral entre tudo e todos, sem suar ou se mexer muito. E, o que é melhor, na maioria dos casos nem sabe como realizou suas proezas. Elas simplesmente “acontecem”.
Que os críticos de plantão me perdoem e, por favor, não me entendam mal: em nenhum momento quis dizer que Monet fora uma fraude, um cagão sem talento. O francês me serviu, meramente, como uma ilustração de tese. Há exemplos de cagões de verdade, só não os cito por motivos políticos. Afinal, esse blog é uma mídia poderosa e muito visitada, não gostaria de alterar o rumo das coisas, ainda mais em época de eleição.
Imagina se eu digo que o Luís Inácio é um cagão, que perder o dedo foi uma dádiva que o poupou de anos de labuta, que a bursite é um presente pouco explorado e que a verticalização caiu no colo, assim, no local e hora convenientes? E se eu contasse que o Paulo Coelho é mago na base da cagada? Que o Gil é gênio por acaso? Que a Glória Maria dá sorte – ou mais – toda hora?
No fim, e no Brasil, tudo é feito assim, tudo acontece dessa forma: é cagada. Arrume seu trono e um bom jornal que, um dia, você chega lá.