Inocêncio perdeu a inocência
Enquanto tateava o congelador atrás de uma cerveja perdida, perguntava-se aonde ele próprio tinha se perdido. Em que parte de seus curtos trinta e poucos anos havia deixado de lado a falada ‘sensibilidade’ que tanto insistiam que não tinha. A verdade é que Inocêncio era um cético, mas nunca hipócrita. “Insensível é o cu da mãe. Vadia”.
Enquanto resmungava sozinho pela casa, deu de cara com um presente do afilhado, de anos atrás: um destes desenhos feitos na pré-escola. Inocêncio perdeu a carranca e riu com a ironia. O sobrinho, de quatro anos, tinha muito a ensinar a todos os expostos que tinha visto mais cedo. “Aqui os borrões não são de propósito, pelo menos”.
E foi logo após largar o papel de lado e proferir mais uma dúzia de sinônimos para “caralhos alados” que, de súbito, foi invadido pela idéia. Vingança. Doce, bela e sarcástica. E repousava ali, toda sua. Inocêncio perdeu o sono.
No dia seguinte, munido de telas e aquarelas, visitou a irmã. Tanto mimou o afilhado, o fazendo desenhar por uma tarde inteira, que em menos de três horas já colecionava quase vinte ‘obras’.
Inocêncio perdeu a poupança. A fez em cheque a um marchand, para reservar a famigerada galeria que lhe custou o noivado. Decidiu por não usar o próprio nome ou o do afilhado: fez-se S. Ribeiro. Soava-lhe misterioso e artístico o suficiente.
A semana correu e era chegada a hora da esperada vernissage. Sucesso absoluto. S. Ribeiro era “inocente”, “enérgico”, “incisivo” e autor de pinceladas “errantes” e “primais”. A crítica aplaudiu, a imprensa divulgou e S. Ribeiro virou sensação. A obra mais concorrida, ‘O Moinho’, foi aclamada como “visceral, honesta e de sensibilidade ímpar”. Nada saiu de lá desacompanhado de quatro zeros à direita.
Ouviu todo o relato do marchand. Após desligar, Inocêncio perdeu a compostura: ria histérico, de uma orelha à outra. S. Ribeiro tinha se tornado assunto obrigatório em cada reduto cult da cidade.
Foi tamanho o sucesso, que não se conteve e sucumbiu. Inocêncio perdeu o ceticismo. Decidiu-se por enveredar de vez para a coisa e investiu todo o lucro em viagens pelo Velho Continente, cursos de arte e um ateliê próprio. Respirou cores, formas, escolas e tomou gosto.
Após alguns meses, a nova exposição de S. Ribeiro era o burburinho da vez, outra vez. Estaria na maior das galerias e trazia quinze obras inéditas. ‘Amadurecimento’ era o que se vendia nos inúmeros releases sobre o esperado evento.
A exposição chegou e foi-se. E com ela, “foi-se a magia de S. Ribeiro”, diziam os críticos. “A inocência acabou”, lamentavam alguns. “O visceral e honesto não está mais lá, apenas petulância indigesta”, repetiam outros.
Frustrado, Inocêncio estava de volta à estaca zero: de novo tateava o congelador atrás de uma cerveja perdida, e perguntava-se, outra vez, aonde ele próprio tinha se perdido. Inocêncio perdeu a paciência, a noiva, a carranca, o sono, a poupança, a compostura, o ceticismo e todo o dinheiro. Inocêncio perdeu a inocência.
